Entenda o que te espera ao analisar os documentos históricos do lemmbra, como as diferenças históricas alteram a linguagem e outras coisas importantes.
Você que se propôs a participar desta Olímpiada entrará em contato com uma das principais fontes para entender os debates sobre a abolição da escravidão no Brasil, bem como sobre a defesa de sua continuidade. Os jornais, tanto os de grande circulação, quanto os de circulação mais restrita, eram espaços fundamentais de debate da opinião pública no país no século 19 e abrem um leque diverso de questões a serem desvendadas.
O primeiro desafio, ao se deparar com os mais de cem textos de jornais do século 19 selecionados para a Olímpiada, pode ser o estranhamento com a grafia das palavras. Em 1871, por exemplo, o poeta Castro Alves enviou uma carta às senhoras da Bahia pedindo auxílio para um leilão promovido pela Sociedade Libertadora, uma organização voltada para emancipação dos escravizados. Dizia a carta:
“O instincto diz — O coração de uma virgem não faz economias. Pede-se a vós, senhoras! á vós, donzellas! á vós, creanças!” (O Abolicionista, 30 de abril de 1871).
Para os leitores do século 21, “instincto”, “donzelas” e “creanças” podem parecer terem sido escritas de forma errônea, mas na verdade nos transportam para um tempo em que nossa língua era escrita de maneira diferente.
Um outro estranhamento pode ser em relação aos termos presentes nos textos jornalísticos do período. No jornal O Tempo, em publicação de 1880, foi exposto que com “a extinção gradual do elemento servil, quiz o memorável gabinete de 7 de março restituir à liberdade uma raça infeliz sem desorganizar o trabalho” (O Tempo, 27 de setembro de 1880). Embora qualificações como essas fossem usuais nos jornais da época, hoje em dia causa espanto, ou pelo menos deveria causar, ler a referência à população negra escravizada como “uma raça infeliz”. É interessante justamente atentarem para as expressões que encontrarão nos jornais que irão desbravar.
O trecho do jornal exibido anteriormente nos abre um outro caminho a ser desvendado, propriamente analisar como a preocupação com a mão de obra foi central no debate abolicionista. Como evitar a desorganização do trabalho? Como garantir a permanência e aquisição de mais trabalhadores? Como obrigar os ex-escravos a trabalharem?
As questões formuladas estavam presentes na época e nos alertam para perceber que a discussão sobre a liberdade dos escravizados foi acompanhada por demandas de medidas coercitivas a essa liberdade. No ano de 1871, em que foi debatida a lei que libertava os filhos e as filhas das mulheres escravizadas que nascessem a partir da data da legislação, já apareciam na imprensa várias demandas dos senhores por repressão. Em uma publicação a pedido, do Diário do Rio de Janeiro, de 16 de abril de 1871, assinada por “O lavrador”, afirmava-se que “a liberdade plena, sem sujeição alguma, tem sido perniciosa”, pois “o escravo não predisposto para uma rápida emancipação, entrega-se à ociosidade e aos vícios” (Diário do Rio de Janeiro, de 16 de abril de 1871).
O que vocês também possivelmente irão desvendar nos jornais é que, se havia a preocupação com a manutenção da mão de obra, da ordem e da sujeição, existia também as leituras críticas e que demandavam uma liberdade real para a população egressa do cativeiro. Ao comentar a fala do trono proferida pela Princesa Isabel, em 3 de maio de 1888, que tratava da necessidade da extinção do elemento servil, ao mesmo tempo em que trazia a importância de aperfeiçoar a “nossa legislação repressiva da ociosidade”, a folha diária abolicionista Gazeta da Tarde indicava que parecia que o governo estava imbuído da “falsa ideia de que o liberto torna-se inimigo do trabalho e da ordem pública”. Além de comentar que a experiência provava o contrário, indagava o jornal: “Quer o governo libertar os negros para metê-los na cadeia? Armar uma polícia rural, violenta e despótica ao serviço dos ex-senhores maus que não sabem se acomodar às novas condições de trabalho?” (Semana parlamentar, 1888, p. 1).
Convidamos você e a mergulhar nos textos jornalísticos do período, e se deparar com um estranhamento em relação à português de época ou aos termos utilizados no período. Convidamos ainda a desvendar algumas questões presentes nos debates sobre a abolição, que colocavam a preocupação com a produção e o controle sobre os trabalhadores no centro, ao mesmo tempo que existiam críticas e propostas de outras possibilidades e caminhos de liberdade.
Somos um grupo de pesquisa e estudo de documentos e periódicos criados pelos imigrantes alemães no brasil que estavam perdidos no tempo. Até agora.
No site do projeto você pode acessar coleções de documentos e jornais indexados por nós de vários orgãos como Arquivo Nacional, Biblioteca Nacional, UFPR e outros.