Entenda melhor como funcionava o Brasil em um dos seus períodos mais sombrios e os seus impactos no mundo de hoje.
... qualquer fonte de renda pública ou privada no Brasil do século 19 – tributos, taxas, aluguéis, lucros, juros, empréstimos, hipotecas –, e você não vai demorar a perceber que havia uma pessoa escravizada por trás de cada moeda, nota de dinheiro, guia de pagamento e título financeiro em circulação na época. O escravo produzia, era alugado, valia como garantia de empréstimo e quando vendido ainda gerava imposto. A economia do país não dependia da escravidão: a escravidão era a economia do país.
Não era para menos. Uma em cada seis pessoas contadas no censo nacional de 1872 era escravizada, e das 1.449 paróquias do Brasil, 1.442 possuíam escravos – isto é, 99,9% dos brasileiros viviam em comunidades onde também moravam seres humanos escravizados. Não é difícil sentir o impacto da escravidão sobre a vida de todos, tanto dos cativos como dos livres. A família, os costumes, as práticas, os valores, os modos de fala, os sensos de hierarquia racial, tudo era atravessado pela escravidão.
Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da escravatura no Brasil
Link para imagem originalAinda assim, o cativeiro acabou no Brasil. No fim do século 19, pobres e ricos, brancos e negros, moradores das cidades e dos campos viveram um período de lutas sociais dramáticas, enormes disputas políticas e transformações econômicas profundas que levaram ao enfraquecimento e finalmente ao colapso da instituição. Em 28 de setembro de 1871, o governo passou a lei do ventre livre, que libertou todos os nascidos de mães escravas dali por diante. Em 1885, aprovou a lei dos sexagenários, emancipando os cativos que completassem 60 anos. E em 13 de maio 1888, por fim, veio a justamente célebre lei áurea.
Nos mais de cem textos de jornais selecionados para esta Olimpíada, o leitor sente e vive a atmosfera eletrizante e emocionalmente carregada dos últimos anos da escravidão. A sociedade se politizou e se polarizou em torno da questão como nunca tinha ousado fazer. “A emancipação dos escravos”, explicou um articulista, “não é a simples mudança ou reforma de uma parte da política ou da administração civil, judiciária e militar do país. É mais importante, mais difícil e muito mais perigosa: é uma completa transformação do edifício social, que, partindo desde a sua base fundamental, que é a organização da família, terá de percorrer todas as escalas da vida até chegar à riqueza nacional, que é o topo do edifício.” (Jornal do Commercio, 5 de junho de 1870).
A cada dia, mês e ano, mais e mais pessoas se mobilizaram em torno da abolição. As páginas da imprensa estampam proprietários e comerciantes defendendo seus investimentos; contra eles, abolicionistas exigindo o fim imediato da escravidão; e a meio caminho, reformistas tentando conciliar a causa humanitária com o respeito à propriedade. Acima dessas posições, pairavam questões importantíssimas. O governo deveria indenizar os proprietários escravistas ou conceder terras, auxílios econômicos e educação aos ex-escravos? Convinha deixar o trabalho dos negros livres ao sabor do mercado ou obrigá-los ao trabalho com leis contra o que então se chamava de “vadiagem”? As hierarquias raciais deviam ser apagadas ou mantidas? As respostas a essas questões não definiam somente o ritmo da abolição, mas também o futuro que aquelas gerações desejaram – e legaram – para o país. Ler os antigos jornais é, de certa forma, mergulhar no nosso próprio tempo.
Partida para a colheita do café com carro de boi
Link para imagem originalQuase todos os que viveram a crise da escravidão no calor da hora desejavam manter os próprios escravizados afastados da luta pela abolição. Alguns temiam a revolução social, outros se aterrorizavam com a mera possibilidade de uma guerra racial e outros ainda simplesmente achavam que a arena da política não era lugar para os cativos. Mesmo assim, os escravizados se mobilizaram. Resistindo aos senhores, fugindo das fazendas em massa, acionando a justiça, eles lutaram pelo que entendiam ser o seu direito e, com isso, contribuíram decisivamente para a queda da escravidão. O grau de politização nas senzalas foi tão grande, que não passou despercebido na imprensa. É possível senti-lo numa cena marcante que se passou na fazenda de Paulino Soares, senador do Rio de Janeiro e um dos mais poderosos adversários da abolição, pouco depois do 13 de maio.
“Reunindo os seus trabalhadores, [o senador] disse-lhes que eles eram livres”, relatou o articulista. “Depois de falar, fez-se um grande silêncio, após o qual um dos libertos exclamou: ‘Peço a palavra!’ ‘Pode falar’, disse o chefe conservador. O liberto fez um pequeno discurso em nome dos seus companheiros” e “pediu licença para manifestar o seu regozijo.” “‘Pois não’, disse o sr. Paulino.” “O liberto, então, dando um passo à frente, exclamou: ‘Viva a princesa imperial. Viva o gabinete 10 de março. Viva o conselheiro Dantas. Viva Joaquim Nabuco. Viva José do Patrocínio. Viva João Clapp.’” (Folha da Tarde, 20 de junho de 1888).
A sequência bem encaixada desses nomes, todos líderes abolicionistas ou políticos simpáticos à causa, sugere um incrível nível de mobilização popular, inclusive escrava, nos anos finais da escravidão no Brasil. Mas essa história tem dois lados. Como não podia deixar de ser, o ativismo contestador dos subalternos despertou uma profunda reação conservadora nas elites brasileiras – uma reação que também deixaria suas marcas vivas até o século 21. Boa leitura!
Escrava de ganho vendedora
Link para imagem originalSomos um grupo de pesquisa e estudo de documentos e periódicos criados pelos imigrantes alemães no brasil que estavam perdidos no tempo. Até agora.
No site do projeto você pode acessar coleções de documentos e jornais indexados por nós de vários orgãos como Arquivo Nacional, Biblioteca Nacional, UFPR e outros.